Stretching the textures of Jazz and improvised music without pushing parameters into dissonance and distastefulness is Porto-based guitarist known by his initials, AP. An educator as well as player AP, whose mouthful of a real name is António Pedro Saramago Campos Neves has blended a quintet of unexpected instruments to define the umbilical cord which connects his eight compositions.
AP, who has recorded in the past with the likes of Miguel Sampaio and José Diogo Martins, has puts together flutist João Pedro Brandão, saxophonist/flutist Gil Silva, pianist Miguel Meirinhos and drummer Gonçalo Ribeiro as full partners here. That’s because except for the concluding “O Sonho” and the appropriately titled “Guitar Murder” his licks and fills are no more prominent than sax slurs, flute peeps, rolling keyboard clips or drum accents.
Meirinhos for one creates measured and melodious, stop-time and swinging, sequences with the same facility. Frequently there is also piano/guitar confluence with keyboard clanging and string flanges rising to the same pointed tones or intersecting with decorous piano asides. Meanwhile Ribeiro’s cymbal clangs, ruffs and shuffles are used to enrich and accent the tunes without adding unneeded attention. On tenor Silva offers smooth Cool Jazz reflections, although he’s more likely to create doubled transverse trills with fellow flutist Brandão.
Tracks vary from the frisky to the formal, with the pianist’s metronomic or processional strokes responsible for much of the latter which also keeps the tunes in horizontal evolution. Upwards turning flute breaths or lyrical interludes from horn players are responsible for much of the friskiness, while guitar flanges and keyboard stabs add varied textures as well.
With lado umbilical balancing between motifs such as guitar string whooshes, profound keyboard exercises and horn expressions which can take or harmonica-like tremolos or brusque reed slurs, “Erosão” is a fine instance of confirmed interaction. A squirmy and squirrely piece, it layers in ascending timbres drum rumbles, key clips flute trills and crystalline guitar frails until it swiftly descends to a united coda.
Ther intricacies of the Portuguese language titles may lose their interconnection for those not familiar with the language. Still for everyone overall the CD preserves an accomplished performance.
Ken Waxman
29 Dezembro 2025
Três anos depois de Nu, o guitarrista e compositor AP (nome artístico de António Pedro Neves, n. 1981) regressa aos álbuns no Carimbo, ativo braço editorial da associação portuense Porta-Jazz, com o novo Lado Umbilical. Desta feita, escolheu como parceiros de aventura Gil Silva nos saxofones tenor e soprano e flauta, João Pedro Brandão na flauta, Miguel Meirinhos no piano e Gonçalo Ribeiro na bateria, dando corpo a uma arquitetura instrumental de que avulta a ausência do contrabaixo (já lá vamos). Logo às primeiras audições de Lado Umbilical ressaltam claras as diferenças, sobretudo fruto de uma vontade de rasgar horizontes, de apostar de um modo mais claro na improvisação livre de constrangimentos. AP corrobora a ideia em conversa com a jazz.pt: «É um álbum mais aberto, no sentido em que a grande maioria dos momentos de improvisação acontecem sem nenhumas restrições harmónicas e rítmicas, por exemplo.» Existem vários momentos de improvisação solta de amarras, a solo ou com vários instrumentos, que surgem como consequência do que já aconteceu ou do que está para acontecer, funcionando como elos entre partes mais extensas. «No Nu já existe um pouco esta preocupação de recorrer à improvisação livre, ao puro diálogo espontâneo entre músicos, mas em Lado Umbilical isso é mais assumido.» À semelhança do registo anterior, encontramos subjacente a Lado Umbilical uma inquietação filosófica com o primordial da existência. «É uma preocupação em manter sempre a ligação, ou pelo menos ter presente, a nossa ligação a tudo aquilo a que eu chamei “lado umbilical”, que é a ligação ou ligações viscerais e intensas que temos com um filho por exemplo, com a música, com a natureza, com a arte», explica AP. Rui Teixeira, aliás, sublinha-o certeiramente num texto que acompanha o álbum: «Emerge das fronteiras, cresce, manifesta-se e assim se afirma, numa oposição ora subtil ora cerrada aos limites da música, aos limites da humanidade.» Não espanta, pois, que a peça que abre o disco se intitule “Parto” e a que o encerra “O Sonho”. «Um sonho onde no fim queremos mais, ou só mais outra vez, sem a menor intenção de um dia cortar o cordão.» AP é uma das figuras centrais do fervilhante ecossistema do jazz no Porto. Conhecemos o papel que desempenha não apenas nos registos em nome próprio, desde o inaugural 6e5, editado pela saudosa Tone of a Pitch em 2011, mas também quando labora para formações mais alargadas, como o Coreto; o álbum Mergulho, de 2014, é inteiramente constituído por composições de sua autoria, ou para a Orquestra Jazz de Matosinhos, para quem pontualmente faz arranjos. Mas é em grupos de dimensão mais reduzida, como em Incerteza do trio certo (com o contrabaixista Diogo Dinis e o baterista Miguel Sampaio), que editou álbum homónimo em 2019, no quarteto que gravou Lento (com Carlos Azevedo ao piano, Filipe Teixeira no contrabaixo e Acácio Salero na bateria) ou no quinteto do contrabaixista João Paulo Rosado que nos ofereceu o ótimo Sinopse, que mais claramente descortinamos toda a amplitude da sua abordagem. Em 2022, apresentou-se Nu com um novo quarteto, que se completava com o pianista José Diogo Martins e uma secção rítmica com Gonçalo Sarmento no contrabaixo e Gonçalo Ribeiro na bateria (o único que conserva o posto). A escrita de AP volta em Lado Umbilical a revelar-se ao mesmo tempo complexa e detalhada, com um lado marcadamente camerístico, que ultrapassa barreiras e que equilibra um lado mais racional e lírico com uma fulgurante autodeterminação musical. Por exemplo, quis que não houvesse interrupções entre cada faixa, como um disco conceptual que se deve ouvir do início ao fim como se de uma única peça se tratasse. «Existe uma componente escrita mais rigorosa, principalmente no aspeto rítmico, que convive com uma “não escrita” que dá origem à improvisação», refere. «Tive a felicidade de ensaiar, tocar, trocar ideias e gravar com músicos excelentes e que percebem rapidamente o que a música pede. Músicos que conseguem contar histórias e encaixar as suas histórias na história grande que o disco conta.» O lado camerístico está refletido na configuração instrumental — com guitarra, piano, saxofone/flauta (ou duas flautas), bateria, sem contrabaixo — escolhida, diz o próprio, de forma intuitiva. «Pensei que o timbre de duas flautas era algo que me agradava, bem como a flauta e o saxofone, o piano e a guitarra. A bateria teria de estar lá para ligar isto tudo.» Já a ausência do contrabaixo partiu de «uma vontade de experimentar escrever música sem este instrumento e pensar que o piano poderia ocupar ou não esse registo.»
O processo de composição e gravação de Lado Umbilical em muito beneficiou da relação de amizade e cumplicidade artística que mantém com os outros músicos. «Trabalhar com o João Pedro Brandão, com o Gil, o Gonçalo e o Meirinhos é fácil», diz. «São músicos que para além de tocarem bem o instrumento percebem e encaixam se na música que idealizei.» Tudo passa por desenvolver ideias, pensar em texturas, contrastes, tensões e resoluções, tirando o maior partido da capacidade de improvisação destes músicos como uma ferramenta de composição «que completa e eleva a música.» A música de Lado Umbilical convoca elementos claramente filiados na linguagem do jazz, mas também na música erudita contemporânea e no rock, com explorações de texturas eletrónicas imagéticas. O rock foi, diga-se, por onde tudo começou: «Comecei a tocar guitarra a ouvir rock. Só mais tarde é que entrei no mundo do jazz e da improvisação. Sempre ouvi muita música escrita e nos últimos anos tenho ouvido também música experimental, free impro.» Está tudo aqui, em proporções distintas. “Parto” é exploração inicial, big bang de vida, com texturas arrancadas à guitarra e eletrónicas acopladas; a partir de certo momento, descortinam-se notas etéreas de piano, sussurros de flauta, afagos nas cordas da guitarra. Tudo evolui num crescendo que evoca o momento da conceção de um embrião até este nascer. “Canção dos Passos” lembra os movimentos ainda temerosos e irregulares, pé ante pé, de uma criança ou de outro mamífero recém-nascido. Os vários instrumentos mimetizam esta sincronia e coordenação, para que tudo aconteça. “O Voo” tem uma melodia planante que guitarra e flauta expõem sobre um ostinato proposto pelo piano; os vários instrumentos interagem numa lógica de grupo de câmara, em linhas cruzadas; tudo vai adquirindo contornos mais concretos, emergem fragmentos improvisados. Como que representando o processo de transformação de algo numa qualquer outra coisa, “Erosão” começa por evidenciar uma estrutura elegante, lançada pelos jogos entre flauta e piano, com a guitarra a imiscuir-se; o baterista desenha figuras particularmente interessantes em diálogo de igual para igual com os demais instrumentos. Saxofone tenor e piano entregam-se a uma bela passagem que remete para uma balada de travo vintage. “Tela em Branco” veicula ideia oposta: começa com a solenidade do piano de Miguel Meirinhos, a que se juntam os outros instrumentos (e o silêncio). A flauta ensaia uma melodia em filigrana; depois são duas flautas em articulação profícua, convocando os demais. A guitarra elétrica introduz elementos disruptivos e agita as águas, acompanhada pela gravidade do piano, divisando-se uma melodia. O mote para “Despertar”, a peça mais extensa do álbum, também é dado pelo piano, que lança uma interação minuciosa com flauta e saxofone em dança elegante, a guitarra a pontuar, a bateria prenhe de detalhes. Tudo parece voltar ao momento inicial para recomeçar com um vigor renovado, transformando progressivamente a ideia inicial mais serena num ambiente que admite o caos. O diálogo vívido entre flauta e saxofone transporta-nos para outro espaço e para outro tempo. AP explora as potencialidades texturais da guitarra (e dispositivos eletrónicos acoplados) em “Guitar Murder”, totalmente improvisada, numa luta íntima entre homem e instrumento. («Não pensei muito, apenas toquei», disse-nos.) O arco narrativo de Lado Umbilical completa-se com a delicadeza de “O Sonho”, assente num motivo central exposto pelo piano em torno do qual os demais gravitam numa sinusoide, da luz para a escuridão, «uma espécie de “sonhodelo”». Álbum multímodo, Lado Umbilical é reiterado testemunho da relevância criativa do trabalho de AP.
“A música de AP apresenta-se aqui, como o nome do álbum sugere, despida de acessórios ou artefactos, mas plena do mesmo conteúdo e profundidade que distinguem as obras musicais mais esclarecidas, maduras e consistentes. “Nu” é o trabalho de um músico e compositor cada vez mais fiel à sua verdade musical. É o trabalho de um quarteto que se mostra atento a novas tendências e correntes, mas que nunca abandona a sua essência. É composição, improvisação e execução musical imbuída da proficiência natural de quem sabe o que está a fazer”
António Branco
19 Agosto 2025
AP’s original music is presented here, as the album’s name suggests, stripped of accessories or artefacts, but full of the same content and depth that distinguish the most enlightened, mature and consistent musical works. ‘Nu’ is the work of a musician and composer who is increasingly faithful to his musical truth. It is the work of a quartet that is attentive to new trends and currents, but never abandons its essence. It’s composition, improvisation and musical performance imbued with the natural proficiency of someone who knows what they’re doing.
Rui Teixeira
2022
“Nu” é nova prova, se necessária fosse, da relevância criativa de AP enquanto guitarrista e estratego sonoro de quem sempre se podem esperar resolutos passos em frente.”
Nu’ is further proof, if any were needed, of AP’s creative relevance as a guitarist and sound strategist from whom resolute steps forward can always be expected.
António Branco
2022
“Mergulho, o segundo disco do ensemble Coreto, ficará para a História do jazz feito em português.”
“Mergulho, the second album by the Coreto ensemble, will be part of the fundamental history of Portuguese jazz.
Nuno Catarino
2014